Crónicas de um Coração Viajante | 'Amor à primeira vista no metro de Londres'

by - janeiro 21, 2019


Existem momentos que vivemos que parecem uma cena de um filme romântico. Falar de amor à primeira vista é quase um cliché e já quase ninguém acredita nisso. Pelo menos até o viverem, mesmo que seja algo tão efémero. O meu amor à primeira vista durou pouco mais de cinco minutos e começou em Holborn, uma estação de metro em Londres.

Na manhã de uma segunda-feira entrei no metro em Holborn com direção a Ealing Broadway mas a minha intenção era mudar de linha em Notting Hill Gate.

Assim que entrei na carruagem sentei-me. Dada a disposição dos bancos do metro de Londres é impossível não olhar para quem vai à nossa frente. Eu olhei e estava um homem que não deveria ter mais do que 27 ou 28 anos. Não lhe daria mais do que isso. Éramos os únicos na carruagem e, com algum cuidado, olhei para ele. Estava a ler muito atentamente o jornal Metro com a perna cruzada e ligeiramente inclinado para direita. Era moreno, vestia um sobretudo azul e tinha um cachecol à volta do pescoço. Calças clássicas azuis e sapatos castanhos. Tenho alguma tendência em imaginar a vida dos que me rodeiam e pensei que este homem tivesse um emprego onde o dress code era formal. Ficava-lhe bem.

O metro inicia a sua marcha e quando voltei a olhar para a cara dele, os nossos olhos cruzaram-se. Desviei o olhar atrapalhada, mas não demorei a olhar de novo. Voltámos a olhar-nos, e desta vez ele sorriu. Eu retribuí envergonhada. Pensei “talvez devesse dizer olá”, mas eu estava num estado tal de timidez que só pensei e esperava que ele conseguisse ler-me a mente ou que eu tivesse pensado tão alto que ele me conseguisse ouvir.

O metro chegou à estação de Tottenham Court Road e senti uma ânsia incrível. “Por favor, não saias aqui!”. Como se tivesse percebido no meu olhar, não saiu. Fechou o jornal e ficámos a olhar um para o outro e a sorrir durante a viagem até à estação seguinte. Eu queria mesmo dizer “olá”, mas as palavras não me saíam. O metro começou a abrandar e ele levanta-se. Alto. Mesmo bonito. Segui-o com os olhos, ele agarra-se ao poste mesmo junto à porta do metro e ficou de lado para mim. Dou por ele a levantar ligeiramente a mão esquerda. Sabem aquele movimento que fazemos com a mão quando passamos a passadeira e queremos agradecer o condutor por ter parado? Foi mais ou menos este gesto que fez mas aqui com a intenção de dizer “olá” ou “adeus”. Entusiasmada, levanto-me a minha mão direita e digo em voz alta “bye”. O metro pára. Estamos em Oxford Circus. Numa fracção de segundos penso “vou sair aqui também e vou mesmo falar com ele”, embora o meu destino ainda ficasse a mais quatro estações dali. As pernas não se mexeram e ele saiu. As portas começaram a fechar, ele vira a cabeça para o metro olhando para mim através da janela enquanto caminha em direção à saída. Levantei mais a mão e disse-lhe adeus outra vez enquanto sorria.

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